
No tabuleiro político do Pará,poucos nomes carregam umaidentidade ideológica tão defi-nida quanto a de Mário Couto.Ex-senador, figura conheci-da no estado e com históricode posicionamentos firmes,Couto sempre se apresentoucomo um político alinhadoà direita tradicional, antesmesmo da ascensão recentedesse campo no cenário na-cional. Ao longo dos anos,construiu sua imagem comoalguém que não apenas dis-cursava, mas se posicionavacom clareza.Esse perfil se consolidou ain-da mais durante o ciclo elei-toral que levou Jair Bolsonaroao poder.Mário Couto esteve entre osnomes que fizeram campa-nha aberta em defesa do ex--presidente, alinhando-se aodiscurso conservador e re-forçando sua posição dentrodesse espectro político. Des-de então, sua atuação públicapassou a caminhar junto comesse campo ideológico, man-tendo proximidade com pau-tas e lideranças associadas aobolsonarismo.Nos bastidores políticos doPará, relatos frequentes apon-tam que o nome de FlávioBolsonaro aparece com recor-rência em reuniões e articu-lações envolvendo o ex-sena-dor. Para interlocutores, essaassociação funciona como umsímbolo político, uma formade sinalizar alinhamento como núcleo mais influente da di-Abril/269Mário Couto e Waldemar da Costa Netoreita nacional.Não se trata apenas de proxi-midade circunstancial.Trata-se de construçãode identidade.Mesmo fora do Senado, Má-rio Couto não saiu derrotadopoliticamente. saiu maior.Com mais de 1,4 milhão devotos nas eleições de 2022,o ex-senador se consolidoucomo um dos nomes mais ex-pressivos da direita no Paránão apenas pelo volume elei-toral, mas pelo perfil de elei-tor que conseguiu mobilizar.Em um cenário fragmentado,Couto foi capaz de reunir umabase consistente, fiel e ideolo-gicamente definida.Não foi suficiente para a vitó-ria, mas foi mais do que sufi-ciente para garantir relevância.Esse desempenho não pode10 Abril/26ser tratado como um episódioisolado. Ele revela algo maisprofundo: existe no Pará umeleitorado de direita organi-zado, ativo e disposto a seguirlideranças que se posicionamcom clareza, e Mário Coutomostrou que sabe dialogar di-retamente com esse público.É exatamente por isso quesua retirada do jogo eleitoralmais recente não passou des-percebida.Não se tratava apenas deum candidato.Tratava-se de um ativo políti-co com densidade, com histó-rico e com capacidade real dedisputa. Um nome que, mes-mo sem mandato, continuavacom força suficiente para in-fluenciar o cenário estadual.E quando um nome com essepeso é colocado para fora dadisputa, de forma repentina esem explicações claras, o im-pacto vai além da estratégiapartidária. Afeta o equilíbriodo jogo. Afeta o eleitor.E levanta uma pergunta queainda ecoa nos bastidores dapolítica paraense: quem ga-nha quando um candidatocom mais de um milhão devotos deixa de disputar?A resposta, por enquanto, nãoestá nas urnas.Está nas decisões tomadaslonge delas.E foi exatamente essa identida-de que levou o Partido Novo aenxergar em Mário Couto umaoportunidade estratégica.Ao convidá-lo para disputar ogoverno do estado, o partidobuscava algo que ainda nãopossuía no Pará: densidadepolítica com identidade ide-ológica clara. Couto ofereciaexatamente isso, nome co-nhecido, base consolidada eligação direta com um eleito-rado de direita já existente.Mas o movimento não se sus-tentou.A ruptura repentina entre oPartido Novo e Mário Couto,já no final do prazo eleitoral,levantou questionamentosnão apenas sobre estratégia,mas sobre coerência política.Um partido que se posicio-na como alternativa à velhapolítica abriu mão, de formaabrupta, de um nome quecarregava exatamente o perfilque dizia representar.
